domingo, outubro 19, 2003

Tou-me cagando...

Parafraseando o infeliz Ferro Rodrigues:

Tou-me cagando para os nossos políticos,
Tou-me cagando para os nossos juízes,
Tou-me cagando para os nossos deputados,
Tou-me cagando para os nossos jornalistas,
Tou-me cagando para o nosso governo,
Tou-me cagando para a nossa oposição,
Tou-me cagando para o parlamento,
Tou-me cagando para as prostitutas de Bragança,
Tou-me cagando para os doidos que pensam que Olivença ainda é nossa,
Tou-me cagando para a nossa justiça,
Tou-me cagando para a PJ,
Tou-me cagando para o Paulo Pedroso,
Tou-me cagando para o Rui Teixeira,
Tou-me cagando para o Ferro Rodrigues,
Tou-me cagando para o António Costa,
Tou-me cagando para o Procurador Geral da República,
Tou-me cagando para o Bastonário da Ordem,
Tou-me cagando para a Universidade Moderna,
Tou-me cagando para a "Caterine Deneuve",
Tou-me cagando para as cunhas,
Tou-me cagando para quem se caga no Segredo de Justiça,
Tou-me cagando para toda esta merda

quarta-feira, outubro 15, 2003

Bragança no centro do mundo...

As célebres e pitorescas "mães de Bragança" fizeram aquilo que nem a Expo 98, nem o Euro 2004 ou qualquer outro evento ou personalidade portuguesa ousaram conseguir. Colocaram uma pequena cidade do interior de Portugal na capa da edição europeia da TIME.

Argumentarão alguns que o motivo não será o mais aconselhável. No entanto, o que é indesmentível é que alguns milhões de leitores - dos mais influentes do mundo - ficaram a conhecer uma das facetas do Portugal moderno: as meninas brasileiras.

O Dr. Cadilhe e a sua Agência Portuguesa para o Investimento ainda vão fazer de Bragança uma verdadeira Las Vegas lusitana...

segunda-feira, outubro 13, 2003

É só fumaça...

Caso estivesse vivo, o almirante repetiria hoje perante a histeria instalada as sábias palavras do Terreiro do Paço:

Não tem perigo,
O Povo é sereno!
É só fumaça...


domingo, outubro 12, 2003

Ainda a Clara Ferreira Alves

No post de ontem, ao referir-me à lúcida Pluma Caprichosa de Clara Ferreira Alves, ficaram algumas coisas por citar, nomeadamente a seguinte reflexão:

"Vincular uma acção governativa a uma superioridade moral tem os seus riscos, porque o erro é humano e as pessoas, ou os políticos, não são assim tão diferentes uns dos outros. (...) Cá fora, fora das luzes, a realidade demonstra-nos todos os dias que todos somos iguais, mas uns são mais iguais do que outros."

Depois do episódio da cunha, do circo mediático que rodeou a libertação da Paulo Pedroso e de tudo aquilo que temos assistido nos últimos tempos, estas palavras contudentes e esclarecidas permitem que tenhamos alguma perspectiva sobre o que vai ficando para lá da superficialidade e do imediatismo da guerra de palavras e da guerra de audiências em que se transformou o nosso quotidiano.

sábado, outubro 11, 2003

É preciso ter lata...

Ferro Rodrigues insurgiu-se hoje contra o "populismo das televisões" no caso de Paulo Pedroso. Se se compreende e até se elogia a frontalidade e a solidariedade activa que o líder do PS demonstrou desde a primeira hora ao seu camarada de partido, não se pode entender que quem mais utilizou o sistema mediático para fazer valer as suas posições, agora coloque sobre os media todo o ónus deste autêntico circo.

Na passada quarta-feira, Paulo Pedroso, Ferro Rodrigues, António Costa e toda a restante clique do P.S. não tiveram qualquer pejo em aparecer nas televisões e lançar uma verdadeira barragem de fogo contra a Justiça em geral e contra o PGR em particular... Foi um espectáculo mediático que as televisões aproveitaram até à exaustão, é certo, mas em que os protagonistas centrais foram os socialistas.

Por isso é, hoje, muito difícil de entender estas palavras do líder do PS.

Clara Ferreira Alves no Expresso de hoje, a propósito dos tristes casos desta semana, refere o seguinte: "O caminho da moralidade demagógica é um caminho resvaladiço. Acaba-se sempre por tropeçar e cair".

Palavras muito lúcidas...

A Vida...

O rio passa, passa
e nunca cessa.
O vento passa, passa
e nunca cessa.
A vida passa:
nunca regressa

Poema Azteca, tradução de Herberto Helder em A Rosa do Mundo

quarta-feira, outubro 08, 2003

O dia da liberdade...

Curioso país o nosso...

Agora estamos num momento deveras inédito. O povo da rua passou defender arduamente a Justiça que vamos tendo e chega mesmo a idolatrar aquele a quem algumas vozes bem falantes chamam - muito perversamente, diga-se em abono da verdade - de " jovem juíz da tshirt branca".

Do outro lado da barricada temos alguma intelectualidade de esquerda, a classe política, o pessoal da Ordem dos Advogados e grande parte da classe média-alta que criticam veementemente as decisões dos tribunais e a arbitrariedade de muitas medidas, nomeadamente a aplicação da prisão preventiva. Aliás, o coro de protestos a que se assiste em certos meios dá quase a entender que a prisão preventiva foi algo que só agora começou a ser usado de forma abusiva...

É neste contexto de divisão profunda na sociedade portuguesa que se desenrolam os acontecimentos de hoje. Foi o grande dia de vitória para a família política da esquerda e respectivos aliados. O Tribunal da Relação de Lisboa ordenou a libertação de Paulo Pedroso e de imediato todo o processo da pedofília foi posto em causa.

O mediatismo e o ambiente de verdadeira histeria que rodearam a saída do ex-ministro da prisão remetem para o imaginário da libertação dos presos políticos de Caxias em 1974. Foi uma operação muito bem montada com a parceria empenhada das televisões que acabou, muito intencionadamente, por induzir confusão e o consequente descrédito no funcionamento da Justiça.

Estamos, pois, a assistir a uma verdadeira luta de classes. De um lado os fracos e oprimidos e do outro os ricos e poderosos...

É uma apreciação certamente simplista e maniqueísta do problema, mas reflecte uma situação, no mínimo, perigosa e potencialmente explosiva.

Vamos ver o que isto vai dar...

terça-feira, outubro 07, 2003

A vigança do homem comum...

A demissão dos dois ministros de Durão Barroso teve o condão de provar algo que é cada vez mais indescutível: o poder que os media assumem nas sociedades modernas.

Mas, mais do que isso, este surpreendente caso provou que, frequentes vezes, há pessoas que, apesar de nominalmente não serem portadoras de uma capacidade de grande influência ou de não personificarem qualquer poder instituído, podem deter por breves momentos um enorme poder posicional.

Imaginem aquilo que pode acontecer se um funcionário anónimo de um ministério qualquer tiver a sorte (ou o azar) de contactar com um documento comprometedor ou de, simplesmente, ouvir uma conversa melindrosa. Imaginem, igualmente, que esse mesmo funcionário anónimo e insignificante resolve dar o "grito do Ipiranga" e contactar um qualquer jornalista de uma qualquer televisão da nossa praça... O que é que pode acontecer? Um escândalo político e a suprema vigança do homem comum.

segunda-feira, outubro 06, 2003

Há vida depois do folclore!

Depois de todo o folclore que rodeou os episódios das viagens turísticas de helicóptero e das cunhas ministeriais o que fica, afinal, é uma sensação de algum vazio. Se é um facto que estes casos revelam muito da nossa natureza colectiva pelo "chico espertismo" que evidenciam, o que é certo é que, cada vez mais, se sente que falta a este país uma discussão de fundo sobre o nosso futuro e sobre o nosso lugar no mundo.

Todos nós (blogoesfera incluidissíma) caimos na armadilha mediática de comentar fait-divers mais ou menos caricatos, mais ou menos sérios ou mais ou menos indecorosos... Mas onde é que estão as questões que realmente interessam?

Quando é que foi que este país fez uma reflexão colectiva sobre o seu ser? Há quanto tempo não questionamos o rumo estupidificante que estamos a trilhar? Mais déficit menos déficit, mais pedófilos famosos menos pedófilos famosos, mais ministros menos ministros... É um ritual estupidificante a que nos rendemos sem qualquer resistência.

Provavelmente, num futuro próximo, seremos obrigados a pronunciarmo-nos sobre a Constituição Europeia. Alguém está preparado para o fazer? Ou vamos, tal cordeirinhos, seguir os mandamentos dos directórios partidários. Se pertencemos à esquerda caviar ou estalinista, vamos para a rua protestar e votamos Nâo. Se temos mais queda pela mandriona esquerda do sistema, vamos votar Sim e sublinhamos a nossa veia europeísta. Se estamos próximo da actual maioria, vamos fazer o que o duo Durão-Paulinho das Feiras nos indicar, i.e, votar Sim.

Mas será que tudo vai ser assim tão previsível?

E se, como tudo indica, os desinteressados portugueses ficarem em casa ou nos centros comerciais em vez de votarem no Referendo?

Será mais uma oportunidade perdida para discutirmos o nosso futuro? Ou será a derradeira pedrada no charco?

quinta-feira, outubro 02, 2003

A cunha

Àcunha, em alguns dialectos de Moçambique, significa Branco ou Português.

Aquela gente é mesmo sábia, pois não há termo que melhor nos defina...

A cunha é uma verdadeira instituição nacional que se pratica e reproduz no quotidiano de todo o bom cidadão luso. Seja ele ministro ou porteiro, há sempre uma oportunidade para se pedir uma ou para se conceder outra.

Foi o que fizeram os distintíssimos ministros do Ensino Superior e dos Negócios Estrangeiros. O primeiro, num verdadeiro acto de solidariedade interministerial, despachou positivamente o ingresso no curso de medicina da Universidade Nova da filha do segundo. Não é comovente?

É que a coitada da rapariga, afinal, seria prejudicada pelo facto do pai ter sido nomeado ministro e ter, por isso, abandonado a brilhante carreira de diplomata que lhe garantíria o ingresso facilitado no ensino superior. Coitada, era uma necessitada! E por isso das Necessidades saiu um lancinante apelo de ajuda para o colega Lynce. E este, ao abrigo de uma lei qualquer, "arranjou" uns argumentos e providenciou que uma das preciosas vagas do curso de medicina fosse ocupada pela filha do ministro.

Segundo a SIC, que denunciou esta noite o caso, a lei dispensa os estudantes que sejam filhos de diplomatas deslocados no estrangeiro das provas de acesso, não havendo igualmente nota mínima necessária para a candidatura. Maravilha!

Só que há um pequeno pormenor. A infeliz rapariga vive em Portugal desde Abril de 2002 e terminou o 12º ano por cá... Logo, teria que se comportar como um qualquer e simples mortal!

Os moçambicanos estão carregados de razão Àcunha é, mesmo, o nosso melhor epíteto.