segunda-feira, outubro 06, 2003

Há vida depois do folclore!

Depois de todo o folclore que rodeou os episódios das viagens turísticas de helicóptero e das cunhas ministeriais o que fica, afinal, é uma sensação de algum vazio. Se é um facto que estes casos revelam muito da nossa natureza colectiva pelo "chico espertismo" que evidenciam, o que é certo é que, cada vez mais, se sente que falta a este país uma discussão de fundo sobre o nosso futuro e sobre o nosso lugar no mundo.

Todos nós (blogoesfera incluidissíma) caimos na armadilha mediática de comentar fait-divers mais ou menos caricatos, mais ou menos sérios ou mais ou menos indecorosos... Mas onde é que estão as questões que realmente interessam?

Quando é que foi que este país fez uma reflexão colectiva sobre o seu ser? Há quanto tempo não questionamos o rumo estupidificante que estamos a trilhar? Mais déficit menos déficit, mais pedófilos famosos menos pedófilos famosos, mais ministros menos ministros... É um ritual estupidificante a que nos rendemos sem qualquer resistência.

Provavelmente, num futuro próximo, seremos obrigados a pronunciarmo-nos sobre a Constituição Europeia. Alguém está preparado para o fazer? Ou vamos, tal cordeirinhos, seguir os mandamentos dos directórios partidários. Se pertencemos à esquerda caviar ou estalinista, vamos para a rua protestar e votamos Nâo. Se temos mais queda pela mandriona esquerda do sistema, vamos votar Sim e sublinhamos a nossa veia europeísta. Se estamos próximo da actual maioria, vamos fazer o que o duo Durão-Paulinho das Feiras nos indicar, i.e, votar Sim.

Mas será que tudo vai ser assim tão previsível?

E se, como tudo indica, os desinteressados portugueses ficarem em casa ou nos centros comerciais em vez de votarem no Referendo?

Será mais uma oportunidade perdida para discutirmos o nosso futuro? Ou será a derradeira pedrada no charco?

quinta-feira, outubro 02, 2003

A cunha

Àcunha, em alguns dialectos de Moçambique, significa Branco ou Português.

Aquela gente é mesmo sábia, pois não há termo que melhor nos defina...

A cunha é uma verdadeira instituição nacional que se pratica e reproduz no quotidiano de todo o bom cidadão luso. Seja ele ministro ou porteiro, há sempre uma oportunidade para se pedir uma ou para se conceder outra.

Foi o que fizeram os distintíssimos ministros do Ensino Superior e dos Negócios Estrangeiros. O primeiro, num verdadeiro acto de solidariedade interministerial, despachou positivamente o ingresso no curso de medicina da Universidade Nova da filha do segundo. Não é comovente?

É que a coitada da rapariga, afinal, seria prejudicada pelo facto do pai ter sido nomeado ministro e ter, por isso, abandonado a brilhante carreira de diplomata que lhe garantíria o ingresso facilitado no ensino superior. Coitada, era uma necessitada! E por isso das Necessidades saiu um lancinante apelo de ajuda para o colega Lynce. E este, ao abrigo de uma lei qualquer, "arranjou" uns argumentos e providenciou que uma das preciosas vagas do curso de medicina fosse ocupada pela filha do ministro.

Segundo a SIC, que denunciou esta noite o caso, a lei dispensa os estudantes que sejam filhos de diplomatas deslocados no estrangeiro das provas de acesso, não havendo igualmente nota mínima necessária para a candidatura. Maravilha!

Só que há um pequeno pormenor. A infeliz rapariga vive em Portugal desde Abril de 2002 e terminou o 12º ano por cá... Logo, teria que se comportar como um qualquer e simples mortal!

Os moçambicanos estão carregados de razão Àcunha é, mesmo, o nosso melhor epíteto.

terça-feira, setembro 30, 2003

Pedrito de Portugal

Há por aí um moço que, às terças-feiras, aparece na SIC a falar com toda a pompa e circunstância, como um verdadeiro homem de Estado.

Sabe de tudo e sobre tudo opina. Dizem que quer ser Presidente. E ele, com a humildade que se lhe conhece, nem diz que sim nem diz que não. Mas, todos sabemos que este homem foi feito para duas coisas: ser presidente de qualquer coisa e ser vedeta de televisão.

Neste particular, somos obrigados a ser sérios. O moço tem jeito e algum sucesso. Foi presidente do Sporting, foi presidente da Figueira, é presidente de Lisboa, é presidente da empresa municipal de out-doors de Lisboa. Logo, Belém será o destino natural do homem que gosta dos violinos de Chopin.

Mas, não esqueçamos a veia mediática deste leão da política. Câmaras é com ele (atenção, agora estamos a falar de tv). Neste sentido, sabe-se que as suas já famosas colaboradoras estão em negociações com a Endemol para a realização da edição 69 de Big Brother, emitida a partir do palácio de Belém...

Esperam-se concorrentes especiais, para além do Pedrinho, teremos o Paulinho Portas, a incontornável Cinha (uma autêntica mulher do poder), a Fátima Felgueiras pelo núcleo do P.S. do Rio de Janeiro, um representante comunista ainda não nomeado pelo comité central, e o Miguelinho Portas em representação da esquerda caviar. Para além disso, está garantida a participação do Zézito Durão todas as quintas-feiras aquando das audiências com Sua Excelência o Senhor Presidente da República Portuguesa.

Parece um delírio, mas já nada me surpreende... Pelo sim, pelo não, para a posteridade, aqui fica o registo desta louca profecia.

segunda-feira, setembro 29, 2003

Ode aos intelectuais do burgo...

"Uma mosca sem valor
Poisa, c'o a mesma alegria
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria."

António Aleixo; Este Livro Que Vos Deixo; Vol. 1; Lisboa; Editorial Notícias

domingo, setembro 28, 2003

Um toque de azul...

Quase ao mesmo tempo que vemos morrer a grande "Grande Reportagem" (ver post de 30 de Agosto), eis que surge no mercado editorial português um projecto de muita qualidade, denominado "Blue", que se materializa em duas revistas mensais: a "Blue Travel" e a "Blue Living".

Destaque para o toque de classe da primeira que consegue, através de bons textos e de uma produção fotográfica espantosa, sublimar o fascínio que as viagens despertam em qualquer um.

Acrescente-se a isto tudo o notável esforço pela apresentação de destinos diferentes dos (a)normais roteiros turísticos. O exemplo de Setembro é magnífico. A descoberta de uma autêntica pérola do Índico: o arquipélago de Bazaruto.

Mais do que um destino turístico Bazaruto (como todo o Moçambique) é uma descoberta do nosso alter-ego. Moçambique é tudo aquilo que nós não somos, mas gostaríamos de ter sido...

Já agora, fica-se a aguardar uma reportagem sobre a mágica, serena e hospitaleira Ilha de Moçambique.

sexta-feira, setembro 26, 2003

PP, Le Pen & Companhia

O ministro Portas está imparável...

Depois das belas palavras sobre a imigração e da revoada de críticas que lhe caiu em cima, em que pontifica a óbvia comparação a Le Pen, o líder do PP convidou para o congresso do seu partido o inimitável e nojento Gianfranco Fini, vice-primeiro-ministro italiano, líder do partido pós-fascista Aliança Nacional.

Há coisas que não se percebem... De um momento para o outro assumimos esta condição arrogante de burgueses racistas e xenófobos, como se não tivéssemos nenhumas responsabilidades históricas com África, como se não tivéssemos alguns millhões de emigrantes espalhados pelo mundo e como se a grande maioria dos portugueses inscritos nos centros de emprego, em vez de reclamarem e aguardarem pachorramente em casa o subsídio de desemprego ou o rendimento mínimo, estivessem dispostos a ir para as obras, trabalhar na agricultura, recolher lixo ou servir à mesa de restaurantes...

E se um dia os Le Pen e os Fini deste mundo decidirem expulsar os nossos emigrantes? O que é que o Paulinho das feiras vai fazer?

quinta-feira, setembro 25, 2003

Turismo em Lamego...

A SIC noticiou hoje mais uma estória portuguesa.

Em Lamego, o comandante dos bombeiros decidiu «rentabilizar» o helicóptero destinado ao combate dos incêndios que foi alugado pelo Estado pela módica quantia de 700 cts. por hora de voo. Assim, quem quiser ficar a conhecer as maravilhas da região pode dar uma voltinha pelos céus e sentir toda a adrenalina que este tipo de experiência proporciona...

Os amigos do dito comandante e os notáveis da terra parecem ter preferência na fila de candidatos ao passeio. Contudo, não há nada que uma «boa lembrança» depositada nas mãos do diligente soldado da paz não consiga ultrapassar.

E o povo a pagar...

terça-feira, setembro 23, 2003

Este país morreu!

É desta forma fatalista que termina o fabuloso "Estação das Chuvas" do angolano José Eduardo Agualusa.

É a biografia romanceada da poetisa e historiadora Lídia do Carmo Ferreira que nos dá a conhecer um pouco da tragédia e da história recente de Angola. Desde a opressão dos derradeiros tempos do colonialismo aos desvarios da independência, passando pela insanidade da Guerra Cívil.

Vem isto a propósito do Editorial do Público de hoje, assinado por Nuno Pacheco, onde, com louvável desassombro, é relatada a surpreendente nomeação do traficante de armas Pierre Falcone como ministro plenipotenciário de Angola junto da UNESCO.

Esta estranha nomeação tem lugar numa altura em que, segundo o Público, o novo homem de Angola na UNESCO tem os seus movimentos limitados em França e "a justiça helvética (...) acusa o cidadão Falcone "de 'branqueamento' de dinheiro em dois inquéritos separados, um sobre as comissões, ou luvas, pagas no âmbito das vendas de armas a Luanda durante a guerra civil, e o outro sobre a utilização do dinheiro da transacção da dívida de Angola à Rússia, que teria sido desviado a proveito de 'dignitários políticos'."

É Angola no seu melhor. O país onde a lógica irracional dominante consegue normalizar o absurdo.

P.S. Outro livro que retrata muito da realidade angolana é a "Baía dos Tigres" de Pedro Rosa Mendes. Imperdível!

segunda-feira, setembro 22, 2003

Olivença, os moinhos de vento, os chaparros e a CIA...

Com tanto assunto interessante para entreter o tempo, então não é que há por aí um par de moços que formaram o denominado Grupo dos Amigos de Olivença? Sim, Olivença. Essa terra ocupada e oprimida pelas forças imperialistas de Castela...

É uma causa folclórica que vai animando o nosso anedotário.

Mas, Olivença ainda há-de ser nossa! A perserverança deste punhado de homens foi agora recompensada pelo famoso relatório World Factbook do mais poderoso serviço secreto do mundo, a CIA...

É verdade! Os fugosos rapazes da inteligência americana descobriram que em Olivença, afinal, existe um perigoso conflito fronteiriço. A gravidade é tal que a situação vivida naquela parte da Península Ibérica surge na mesma lista em que pontificam os problemas de Cachemira, da Palestina ou da Libéria (???).

Eis a qualidade da informação da CIA que, pelo ridículo, não passou despercebida à imprensa espanhola. Foi a risota total...

E os nossos moços ficaram todos inchados. O seu conflito, a sua causa têm a cobertura da omnipresente, omnipotente e temida CIA. Com Serviços Secretos com este discernimento muita coisa está explicada. Desde o 11 de Setembro às patéticas buscas de Bin Laden, do Mullah Omar e de Saddam.

Para Olivença e em Força!!!

A Vida é um longo rio tranquilo...

Pois deveria ser...

P.S. Grande filme